Tomie Ohtake: entre o gesto e a cor – um tributo à artista

Tomie Ohtake (Kyoto, 1913 – São Paulo, 2015) foi uma artista plástica japonês-brasileira cujo legado transcende fronteiras e gerações. Conhecida como “dama das artes plásticas brasileiras”, sua obra abrange pintura, gravura e escultura, centrada no abstracionismo informal.
A trajetória pessoal e artística
Chegou ao Brasil em 1936, aos 23 anos, para visitar um irmão, mas acabou permanecendo devido ao estopim da Segunda Guerra Mundial. Depois de anos voltada à vida familiar, aos 39 anos iniciou seus estudos com o artista Keisuke Sugano, e em seguida integrou o Grupo Seibi.
Do figurativismo ao abstrato
Inicialmente, a artista explorou pintura figurativa, com domínio da paisagem urbana e expressões artísticas influenciadas pelos salões modernos. Logo migraria para a abstração geométrica e lírica, desenvolvendo uma linguagem minimalista influenciada por seu duplo legado cultural, japonês e brasileir.
Em 1957, realizou sua primeira exposição individual no Museu de Arte Moderna de São Paulo, e em 1961 participou da Bienal de São Paulo. Foi nesse período que experimentou suas famosas “pinturas cegas”, realizadas com os olhos vendados, como reação ao racionalismo na arte contemporânea.
A estética sensível e intuitiva
Sua arte mesclava cor, forma e silêncio. Inspirada nos haikus e na espiritualidade japonesa, buscava sintetizar o conteúdo essencial em cada obra. Paulo Herkenhoff destaca como suas formas mantêm uma imprecisão que se desvia do rigor geométrico ocidental.
Técnicas e suportes
Na década de 1970, Tomie diversificou sua produção com serigrafias, litografias e gravuras em metal. Suas colagens com papéis recortados de revistas funcionavam como maquetes preliminares, traduzidas depois em pintura e gravura.
Escultura e arte pública
A partir dos anos 1980, passou a produzir esculturas monumentais e obras em espaços públicos. Suas criações se tornaram marcos de São Paulo — mosaicos da Estação Consolação do metrô, escultura na Avenida 23 de Maio, e murais em edifícios públicos. Em 1988, recebeu a Ordem de Rio Branco por uma escultura comemorativa da imigração japonesa, e em 2006 foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural.
O Instituto Tomie Ohtake
Inaugurado em 2001, com projeto arquitetônico assinado por seu filho Ruy Ohtake, o instituto celebra seu legado e promove arte contemporânea com exposições, debates, educação e publicações.
Reconhecimento internacional e mostra recente
Sua obra foi apresentada em exposições internacionais, como "Visible Persistence" (Nova York, 2021), "Open Ended" no SFMOMA (2024) e na Bienal de Veneza (2024). No Brasil, teve mostras como "Tomie Ohtake Dançante" (2022) e "Cor e corpo" (2018).
O legado artístico de Tomie Ohtake
Em sua longa trajetória, Tomie explorou os potenciais expressivos da cor, da forma e da sombra, com singular delicadeza e força. Suas obras com linhas orgânicas, cores intensas e equilíbrio entre gesto e controle continuam a inspirar artistas e públicos ao redor do mundo. A simplicidade intuída se revela potência poética — um convite a observar o silêncio que cada composição ressoa.



