As Gravuras de Fang: Conexão entre Tradição e Experimentação

terça-feira, 26 de agosto de 2025 09:17:00 America/Sao_Paulo

Kong Fang Chen (1931–2012), naturalmente conhecido como Fang, foi um artista multifacetado — pintor, desenhista, gravador e professor — que deixou uma marca profunda na arte brasileira. Nascido em Tung Cheng, na província de Anhui (China), e naturalizado brasileiro em meados da década de 1960, Fang estudou técnicas tradicionais chinesas como o sumi-ê e aquarela ainda durante sua adolescência.

Desde a infância, Fang revelou talento para o desenho, encorajado por seu pai, o engenheiro Han-Cheng Fang. Na adolescência, aprofundou-se em técnicas orientais como aquarela e sumi-ê — esta última caracterizada pela fusão de pintura com caligrafia, simplicidade, naturalidade e síntese — sob a orientação do mestre Chang-Zenshen.

Ao migrar para São Paulo em 1951, Fang expandiu sua formação ao estudar pintura ocidental com o japonês Yoshiya Takaoka entre 1954 e 1956. Durante os anos 60, experimentou o abstracionismo entre 1965 e 1967, mas teve sua maior expressão artisticamente ao retornar ao figurativismo, incorporando memórias orientais e influências ocidentais com sensibilidade e espiritualidade.

As gravuras de Fang refletem essa combinação rara de influências: nelas, o rigor técnico do desenho se funde à leveza do sumi-ê e à experimentação contemporânea. Elementos recorrentes em sua pintura — interiores com poucos objetos, galhos torcidos, composições teatrais que conferem vida aos cenários, distorções sutis de escala — também ganham forma nas gravuras, revelando uma humanidade profunda mesmo em cromatismos restritos.

Um exemplo citado em fontes como Pinterest refere-se a uma “gravura” de Fang identificada como “Desenho”, de série limitada, com dimensões de cerca de 50 × 35 cm, assinada manualmente, possivelmente entre 1 e 50 exemplares ou provas. Esse tipo de obra enfatiza o cuidado artesanal e a proximidade que Fang estabelecia entre arte e público, valorizando o processo e o objeto com o rigor do limitado.

Além disso, o domínio da gravura por Fang dialoga com sua trajetória pedagógica — tornou-se cidadão brasileiro em 1971, lecionou na Faculdade de Belas-Artes de São Paulo em 1972 e participou de exposições amplas nos Salões de Arte e bienais brasileiras, sendo reconhecido por sua contribuição à arte nacional. Sua obra integra coleções significativas, como o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-USP) e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP).

Históricas exposições solo e coletivas conferiram projeção à sua produção gráfica; destacam-se mostra solo em 1959 no Clube dos Artistas Plásticos, coletivas nos Salões Nacionais e Paulista, participação no Panorama da Arte Atual Brasileira (1979), estada em exposições no Japāo e nos Estados Unidos, além de retrospectivas contemporâneas no Instituto Tomie Ohtake (2024) e no M+ em Hong Kong (2025).

Nesse contexto, suas gravuras não são apenas derivadas de sua pintura, mas interlocutoras do diálogo entre Oriente e Ocidente, entre tradição, modernidade e experimentação. Cada gravura conduz o espectador a um estado contemplativo, evocando silêncio e movimento — como uma brisa que dobra galhos, em composições quase poéticas.

Fang buscou revelar o “caráter fisiognômico e espiritual dos objetos”, conferindo-lhes uma dimensão misteriosa e viva. Essa busca permeia também sua técnica gráfica, onde linhas expressivas — algumas quase caligráficas — capturam a essência do gesto, em equilíbrio entre espaço vazio e narrativa visual.

Singularidade gráfica

Nas gravuras, Fang revisita e reinventa a tradição oriental com nuances contemporâneas. As obras revelam:

- Composições serenas: representações de flores, vasilhas, paisagens e figuras animadas, com poucos elementos, porém carregadas de significado e sutileza.

- Detalhamento minucioso: parecem insuflar vida aos objetos — como se cada linha tivesse um propósito meditativo, capturando a essência espiritual das formas.

- Paleta suave e equilibrada: mesmo em técnicas gráficas, suas gravuras mantêm uma atmosfera de calma e harmonia, frequentemente com cores leves ou contrastes moderados.

Exemplos notáveis:

- “Casario I” (1995) — uma serigrafia de 40 × 60 cm, com tiragem P.A., que evoca serenidade e simplicidade arquitetural.

- “Cavalo – Sumiê” (2004) — serigrafia em edição limitada (50 cópias), com uso expressivo do sumi-ê e talvez uma cor vibrante, como o vermelho.

- Outras estampas incluem gravuras em metal e serigrafias com temas como flores, arranjos e animais, sempre com traços caligráficos, delicados e focados na essência.

Contexto artístico e legado

Fang construiu sua carreira a partir de fortes raízes culturais e explorando uma ponte entre o Oriente e o Ocidente. Sua formação eclética permitiu que assimilar influências — desde o sumi-ê e aquarela até o realismo ocidental — que se harmonizam em suas gravuras com uma poética singular.

Ele participou de importantes salões e exposições coletivas desde os anos 1950, conquistando prêmios e reconhecimento artístico significativo no circuito brasileiro. Em 1981, sua relevância ficou evidente com a produção do curta “O Caminho de Fang”, e em 1984 teve texto publicado na Dan Galeria por Theon Spanudis, grande admirador de sua “espiritualidade pictórica”.

A obra gráfica de Fang também foi destacada em mostras recentes como "Chen Kong Fang: O refúgio" (Instituto Tomie Ohtake, 2024), parte do programa Diásporas Asiáticas, promovendo seu legado às novas gerações.

Este texto pode servir como uma imersão na essência da gravura de Chen Kong Fang — evidenciando sua técnica refinada, raízes orientais e diálogo com o modernismo brasileiro. Apresenta-se como uma oportunidade singular de conectar colecionadores e admiradores à espiritualidade, sensibilidade e vigor humano que emanam de cada impressão.